Seminários e atividades realizadas pelo Centro Desformas entre os anos de 2008 e 2016.


  • Seminário CULTURA DO DESMANCHE

Como caracterizar criticamente a cultura contemporânea? Por “crítica” entenda-se o foco analítico inspirado no marxismo e na dialética materialista, que busca dar sentido processual e histórico às manifestações da cultura. Por “cultura contemporânea” entenda-se qualquer manifestação do campo simbólico a partir da idéia do “desmanche” (das instituições, das “grandes narrativas”, do modernismo ou da modernidade, do pensamento e da ação de esquerda, as relações com o mercado ou com a Indústria Cultural e seus condicionantes e mutações recentes).


  • Seminário A FORMAÇÃO E A ESPADA

Tem-se por bonapartismo ao modo pelo qual a burguesia, diante da impossibilidade de conduzir o processo político, delega tal tarefa a um grupo específico, mais usualmente, a uma facção armada a fim de que esta, diante da crise, imponha ditatorialmente o programa econômico burguês.

Neste sentido, os programas de exceção, proclamados pelo salvacionismo bonapartista como medidas para o bem da nação e infensas assim aos interesses de classe, são característicos de processos de modernização tardia ou acelerada, bem vulneráveis, como se sabe, às crises sistêmicas do capitalismo.

Ora, assim posta, a etiologia do bonapartismo aproxima-se daquela dos processos formativos de sistemas culturais, à sua vez, também característicos dos processos de modernização tardia e acelerada.

A história da dominação burguesa, e especialmente a das nações periféricas da América Latina, é pródiga em variantes de uma e outra problemática, bem como em entrecruzamentos entre um e outro processo. Acasos históricos ou casos de determinação recíproca? O moderno parece permitir o teste de suas próprias coordenadas nas vibrações e inquietudes de cada momento presente.

O seminário, diante da variedade dos casos e sem se prender a um período histórico específico, tratará de determinar e distinguir processos concretos, os aspectos próprios a uma e outra problemática em suas diferentes variantes históricas; buscará ainda investigar e distinguir convergências e confrontos entre os bonapartismos e os processos constitutivos dos sistemas simbólicos e culturais.

Deste modo, a problemática política e filosófica dos regimes ditos “de exceção”, discutida por Walter Benjamin e, mais recentemente, por Giorgio Agamben, assim como a dialética entre elementos da contemporaneidade e da tradição, discutida pelo último, pertencem também diretamente ao núcleo de questões e discussões propostas pelo seminário.


  • Seminário OVOS DE SERPENTE

As imagens do fascismo e do nazismo extensamente difundidas, pela indústria cultural, enfatizam seu aspecto bélico externo. Porém, a guerra entre nações não corresponde a um elemento necessário e estrutural do fascismo, mas a traços apenas contingentes e circunstanciais. Dá-se mediante a ênfase generalizada nos particularismos do fascismo, mediante os aspectos do nacionalismo, do militarismo e do racismo, de fato, uma operação de encobrimento a fim de caracterizar o fascismo como situação de exceção e dissimular seu sentido interno e sua face natural, que o permitem reproduzir-se no cotidiano social e sob olhar geral, aparentemente sem qualquer periculosidade. Já Fellini, na contramão de tal visão, ao efetuar a reencenação paródica do fascismo em I Clowns (1970), Roma (1971) e Amarcord (1973) com intuito de desmascarar o seu ressurgimento no pós 68 –, afirmava que o fascismo apresentava “a naturalidade do pão e do queijo italianos”.

Observado em seu processo efetivo de surgimento, como fenômeno embrionário congênito às sociedades duais e em crise, e em sua maturação, tanto na forma histórica quanto talvez na mutação atual, conforme adiante, o fascismo apresenta principalmente a feição de um processo de modernização acelerada, com fortes sinais de estetização ou de estilização e renovação da vida social. Nestes termos, reclama a reorganização ampla da sociedade, mediante metas funcionalmente higienistas, eugenistas, mas, antes de mais nada, individualistas e anti-operárias. Em tais planos, cultura e arte sempre exerceram funções chave, servindo para canalizar expectativas e energias de mudança de acordo com projetos fascistas, e colaborar com programas culturais e ações em sentido estrategicamente oposto ao movimento operário revolucionário.

O seminário tem interesse no exame de casos e estratégias de ascensão dos fascismos em diferentes circunstâncias históricas. Neste sentido, poderá abranger propostas de análise de variados casos do passado, examinando-lhes circunstâncias e modos e, podendo incluir, por exemplo, reflexões sobre processos de modernização acelerada, como aqueles verificados na Russia czarista pós-1905, na Itália mussoliniana a partir da marcha sobre Roma de 1922, nas formas da ascensão do bonapartismo stalinista, no capítulo nazista e naquele franquista, etc., sem esquecer das modernizações e dos bonapartismos periféricos; ou, de outro lado, também acolherá propostas visando à discussão de perspectivas críticas e conceitos, concebidos especificamente contra o crescimento dos fascismos no I pós-guerra (1914-1918), como os de revolução permanente (Trotsky), totemismo (Freud), revolução passiva (Gramsci), etc.

Entretanto, ao lado do interesse em analisar casos históricos de tramas e complôs fascistas, ou ainda de refletir sobre estratégias críticas anti-fascistas de modo geral, o seminário terá por objetivo principal analisar e refletir sobre as relações contemporâneas entre desregulamentação e cultura, a partir da hipótese da substituição atual do viés militarista do fascismo original pelo empreendedorismo, como elemento central da estratégia de ascensão da mutação contemporânea do fascismo, que, segundo a hipótese, surge especificamente centrado, hoje, em estratégias empresariais de privatização dos serviços públicos, e de pedagogia extensa – incluindo os programas de uma rede capilar de institutos, centros de difusão e voluntariado e ações culturais -, em favor da cultura empresarial, sob cuja denominação apresentam-se ora recicladas as novas metas higienistas, eugenistas, anti-políticas, e os programas pró-individualistas ou ainda pseudo-cooperativistas, mas sempre difundindo a lógica do empreendedorismo.

Em suma, o seminário supõe, por hipótese, que o programa econômico dito neoliberal constitua apenas a porção visível de um iceberg que, muito além de exprimir um rearranjo das relações produtivas suscitado pela dinâmica econômico-tecnológica, decorre, na sua raiz, de estratégias efetivamente concebidas no âmbito da guerra social de classes. Deste modo, o alegado programa neoliberal embutiria uma estratégia política de apropriação dos fundos públicos ou estatais, outrora destinados aos serviços públicos e aos benefícios próprios ao estado de bem-estar, assim como o desígnio político de impor, além de uma agenda econômica privatizante, a desqualificação extensa do trabalho e uma perspectiva histórica marcadamente anti-operária, visando à longa duração. Neste sentido, o seminário pretende propor a prospecção histórica do processo político todavia oculto, que antecede a aplicação do programa econômico neoliberal, bem como uma reflexão específica acerca das conseqüências decorrentes da ofensiva anti-operária no plano histórico e político.

 

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